Se você já tomou uma vacina, recebeu soro na veia ou passou por uma cirurgia com algum implante, existe uma boa chance de que um caranguejo tenha participado disso sem que você soubesse. Ele não é bonito, não é raro, e já estava aqui muito antes dos dinossauros. O nome dele é caranguejo-ferradura, e o sangue dele é azul.
Por que o sangue é azul
O nosso sangue é vermelho porque a hemoglobina, a molécula que carrega o oxigênio, é construída em torno do ferro. O caranguejo-ferradura resolveu o mesmo problema com outro metal: a hemocianina dele usa cobre. E cobre oxigenado não fica vermelho, fica azul. O resultado é um líquido de um azul leitoso, quase artificial de tão estranho.
Mas a cor é só a parte pitoresca da história. O que interessa à medicina é uma propriedade muito mais específica do sangue dele.
Um detector de contaminação vivo
O caranguejo-ferradura não tem um sistema imunológico como o nosso, com anticorpos e memória. A defesa dele é bruta e imediata: certas células do sangue reagem a toxinas de bactérias coagulando na hora, prendendo o invasor num gel. E são absurdamente sensíveis. Detectam contaminação em concentrações que nenhum teste convencional pegaria.
A partir dos anos 1970, a indústria farmacêutica passou a usar exatamente isso. Um extrato do sangue do caranguejo virou o teste padrão para verificar se vacinas, medicamentos injetáveis e equipamentos médicos implantáveis estão realmente estéreis. Se o extrato coagula, tem contaminação bacteriana no lote. Se não coagula, o lote está limpo.
É por isso que esse sangue é um dos líquidos mais caros do mundo: o litro chega a valer cerca de 15 mil dólares. Os caranguejos são capturados, têm parte do sangue coletada e a maioria é devolvida ao mar.
Mais velho que os dinossauros
E aqui vem a parte que dá vertigem. O caranguejo-ferradura não é um caranguejo de verdade, é mais aparentado com aranhas e escorpiões do que com o siri da praia. E a linhagem dele está no planeta há pelo menos 450 milhões de anos, com um corpo que mudou pouquíssimo desde então.
Ele viu os dinossauros aparecerem, dominarem o mundo e desaparecerem. Atravessou as grandes extinções em massa praticamente com o mesmo desenho: um escudo em forma de ferradura e uma cauda rígida em espinho. É um fóssil vivo, no sentido mais literal da expressão.
O detalhe amargo
O animal que sobreviveu a quase meio bilhão de anos de catástrofes está em apuros agora. As quatro espécies existentes hoje estão ameaçadas pela pesca excessiva, pela coleta de sangue e pela destruição das praias onde desovam. Um bicho que resistiu ao fim dos dinossauros pode não resistir a nós.
Há alternativas sintéticas ao teste, já aprovadas e em uso crescente. A ironia é que a espécie que garantiu a segurança de milhões de doses de medicamento agora depende de sermos rápidos em aprender a viver sem ela.
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Fontes