Em 22 de junho de 1986, no Estádio Azteca, um jogador colocou a bola na rede com o punho fechado, na frente de mais de cem mil pessoas e das câmeras de televisão do mundo inteiro. O gol foi validado. E quatro minutos depois, o mesmo homem marcou o gol mais bonito que uma Copa do Mundo já viu.
O gol que todo mundo viu, menos as duas pessoas que precisavam ver
Argentina e Inglaterra se enfrentavam nas quartas de final. Aos 51 minutos do segundo tempo, uma bola foi levantada na área inglesa. Maradona, com um metro e sessenta e cinco, subiu junto com Peter Shilton, o goleiro inglês, que era vinte centímetros mais alto e ainda tinha o braço esticado.
Não havia como Maradona ganhar aquela bola de cabeça, e ele não ganhou. Ele levantou o punho esquerdo junto ao rosto, no mesmo movimento da cabeçada, e empurrou a bola por cima da mão do goleiro.
Os jogadores ingleses correram para o árbitro na hora. O árbitro era o tunisiano Ali Bin Nasser, e ele estava atrás do lance, sem ângulo. O auxiliar era o búlgaro Bogdan Dochev. Bin Nasser olhou para Dochev esperando a bandeira. A bandeira não subiu. Ele validou o gol e correu para o meio de campo.
As duas versões nunca bateram. Bin Nasser sempre disse que esperou o sinal do auxiliar, que era quem tinha o ângulo, e que sem esse sinal não podia anular nada. Dochev sempre disse que a decisão era do árbitro. Os dois passaram décadas se culpando, e nenhum dos dois voltou atrás.
A frase
Depois do jogo, perguntaram a Maradona sobre o lance. A resposta virou uma das frases mais conhecidas da história do esporte: o gol tinha sido feito "um pouco com a cabeça de Maradona, e um pouco com a mão de Deus".
Não é uma confissão, é uma provocação, e funcionou como as duas coisas ao mesmo tempo. Ele só admitiu a mão de forma direta muitos anos depois. A essa altura, a expressão já tinha entrado no vocabulário do futebol para sempre, e o gol já era mais lembrado do que qualquer gol legítimo daquela Copa.
Quatro minutos
É aqui que a história deixa de ser uma trapaça famosa e vira outra coisa.
Quatro minutos depois do gol de mão, Maradona pegou a bola ainda no campo de defesa da Argentina, de costas para o gol inglês. Ele girou, e correu. Passou por dois jogadores antes do meio de campo, atravessou o campo inteiro em pouco mais de dez segundos, driblou mais dois defensores dentro da área, tirou o goleiro do caminho e empurrou a bola para o gol vazio.
Em 2002, numa enquete da FIFA com torcedores do mundo inteiro, esse foi eleito o Gol do Século. O mesmo jogador, no mesmo jogo, com quatro minutos de diferença, produziu o gol mais desonesto e o gol mais bonito da história das Copas. É difícil pensar em outro atleta que tenha resumido tão bem quem era em oito minutos de jogo.
A camisa que ninguém sabia que valia uma fortuna
No túnel, depois do apito final, o meio-campista inglês Steve Hodge fez o que jogador faz desde sempre: pediu a camisa do adversário e trocou pela dele.
Hodge guardou aquela camisa listrada por 36 anos. Durante cerca de vinte deles, ela ficou emprestada ao National Football Museum, em Manchester, exposta numa vitrine, e quem passava por lá podia olhar de perto o tecido que estava no corpo de Maradona nos dois gols.
Em maio de 2022, Hodge decidiu vender. A Sotheby's estimou entre quatro e seis milhões de libras. O leilão fechou em 7.142.500 libras, o maior valor já pago em leilão por um item esportivo de qualquer esporte. O comprador não se identificou.
Por que essa história não envelhece
Hoje um gol assim não sobrevive a trinta segundos. O VAR olha, a linha do gol apita, o árbitro vê o replay num monitor na beira do campo e anula.
O que aconteceu no Azteca só foi possível porque, em 1986, a única tecnologia disponível em campo eram dois pares de olhos humanos, mal posicionados, no meio de um estádio gritando. E o mais estranho de tudo é que ninguém realmente quer que aquele gol seja apagado. Ele é injusto, é indefensável, e ao mesmo tempo é parte do que faz o futebol ser o que é: um jogo que ainda cabe numa história contada por pessoas, com vilão, com herói, e com os dois sendo a mesma pessoa.
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