Feche os olhos e imagine um viking. Provavelmente apareceu um sujeito enorme, barbudo, sujo, com um capacete de chifres na cabeça. Das três coisas, uma é invenção do século XIX, e outra é exatamente o contrário do que os documentos dizem.
1. O capacete com chifres nunca existiu
Nenhuma escavação arqueológica jamais encontrou um capacete viking com chifres. Nenhuma. Os capacetes nórdicos que conhecemos são objetos práticos: uma calota de ferro arredondada, às vezes com protetor de nariz, feita para desviar golpe de espada. Chifre num capacete é um convite para o inimigo agarrar sua cabeça, e um viking de verdade sabia disso.
Então de onde veio a imagem? Do teatro. Em 1876, o figurinista Carl Emil Doepler desenhou os trajes para a estreia de O Anel do Nibelungo, a ópera de Richard Wagner, em Bayreuth. Ele queria que os guerreiros nórdicos parecessem míticos e selvagens no palco, e enfiou chifres nos capacetes. Foi um sucesso visual estrondoso.
A era viking terminou por volta de 1066. O figurino é de 1876. Ou seja: a imagem mais famosa dos vikings foi criada cerca de oitocentos anos depois de o último deles morrer, por um artista alemão preocupado com o efeito no palco. E colou tão bem que virou senso comum mundial.
2. Eles chegaram à América 500 anos antes de Colombo
Por volta do ano 1000, uma expedição nórdica liderada por Leif Erikson cruzou o Atlântico Norte e desembarcou no continente americano. Isso não é lenda de saga: em L'Anse aux Meadows, na ponta norte da Terra Nova, no Canadá, existe um sítio arqueológico com restos de construções nórdicas, oficina de ferro e objetos escandinavos. É prova material.
Eles chamaram a região de Vinland. Não fundaram um império, não conquistaram nada, e o assentamento durou pouco, provavelmente alguns anos, com atritos com os povos que já viviam lá. Depois foram embora e a coisa toda virou história contada em casa, sem grandes consequências.
Colombo chegaria ao Caribe em 1492. Quase cinco séculos depois. A diferença não é que os vikings chegaram primeiro, é que a chegada deles não mudou o mundo, e a de Colombo mudou.
3. Eles eram obcecados por higiene
Este é o que mais surpreende, porque contraria frontalmente a imagem do bárbaro imundo. Em nórdico antigo, o sábado se chamava laugardagr: literalmente, o dia de lavar. Os vikings tinham um dia da semana reservado para o banho, e o nome sobrevive até hoje nas línguas escandinavas.
As sepulturas reforçam a história. Pentes de osso finamente entalhados são um dos achados mais comuns em túmulos vikings, junto com pinças, navalhas e limpadores de ouvido. Não era um item de luxo de um ou outro chefe, era equipamento pessoal corriqueiro.
E há a reclamação, deliciosa, do lado inglês. Um cronista medieval registrou a irritação dos locais com os dinamarqueses, que penteavam o cabelo todo dia, trocavam de roupa com frequência e tomavam banho toda semana, e com isso andavam seduzindo as mulheres inglesas. A queixa não era que os nórdicos fossem sujos. Era que eram limpos demais.
Por que a lenda venceu
As três mentiras têm a mesma origem: o retrato dos vikings foi pintado por quem tinha algum interesse nele. Os cronistas cristãos que escreveram sobre as invasões eram justamente as vítimas dos saques, e não faziam questão de nuance. Os românticos do século XIX, séculos depois, precisavam de ancestrais épicos e chifrudos para o palco.
O viking real, com seu pente no cinto, seu banho de sábado e seu capacete redondo sem enfeite, é bem menos operístico. E bem mais interessante.
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- Música: ES_Impossible Theory - Rachel Sandy (Epidemic Sound)
Fontes