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Ele foi demitido de uma fábrica falida e criou o GTA

Em 1987, David Jones foi demitido da fábrica de relógios Timex, em Dundee, na Escócia. Pegou o dinheiro da rescisão e comprou um computador Amiga. Dez anos depois, o estúdio que ele fundou lançava o primeiro Grand Theft Auto.

Em 1987, um funcionário de uma fábrica de relógios em decadência na Escócia foi mandado embora. Ele pegou o dinheiro da rescisão e comprou um computador. Dez anos depois, o estúdio que ele fundou lançaria o primeiro Grand Theft Auto.

A parte boa da história não é a coincidência. É que a própria fábrica, sem querer, tinha plantado a semente.

A fábrica de relógios que montava computadores

A fábrica era a Timex, na cidade de Dundee, no leste da Escócia. Ela operava ali desde o pós-guerra e, no auge, empregava milhares de pessoas, boa parte delas mulheres, montando relógios em linha.

Só que nos anos 80 a Timex de Dundee não montava apenas relógios. A fábrica tinha um contrato com a Sinclair Research, de Clive Sinclair, para produzir os computadores pessoais da marca: primeiro o ZX81, depois o ZX Spectrum, aquele teclado preto de teclas de borracha com a listra colorida no canto, um dos computadores mais populares que o Reino Unido já teve.

O efeito colateral disso numa cidade pequena foi enorme. Computadores começaram a aparecer dentro das casas de Dundee em quantidade muito acima do normal para uma cidade daquele tamanho, e o Spectrum era uma máquina que praticamente pedia para ser programada. Formou-se ali uma geração inteira do que os britânicos chamam de bedroom coders: adolescentes que aprenderam a programar sozinhos, no quarto, sem curso, sem professor e sem internet.

O demitido

Um dos funcionários da Timex se chamava David Jones. Em 1987, ele foi dispensado. Com o dinheiro da rescisão, comprou um computador Amiga, da Commodore, e passou a programar jogos.

Não demorou para ele chamar alguns amigos e transformar aquilo numa empresa. Nascia a DMA Design, em Dundee. O primeiro sucesso grande veio em 1991, com Lemmings, que vendeu milhões de cópias e colocou o estúdio no mapa.

Aqui vale registrar a ironia inteira: a Timex demitiu o funcionário, e foi o dinheiro da própria demissão que comprou a máquina. E foi a própria Timex que, ao encher Dundee de computadores, tinha criado o ambiente onde alguém como ele poderia virar programador.

1993: a fábrica fecha

A Timex de Dundee não sobreviveu. Depois de uma disputa trabalhista amarga que se arrastou por meses, a fábrica fechou as portas de vez em agosto de 1993, encerrando 47 anos de operação na cidade.

Foi tarde demais para desfazer o que ela tinha começado. A essa altura Dundee já era um polo de desenvolvimento de jogos, e continua sendo até hoje. A fábrica morreu; a indústria que ela acidentalmente ajudou a criar, não.

O jogo que quase foi cancelado

Em 1995, a DMA Design começou a trabalhar num jogo de corrida e perseguição policial com o nome provisório de Race'n'Chase. O projeto era um problema. Era instável, atrasou, e o pior de tudo: não era divertido. Chegou perto do cancelamento.

A lenda que se conta é bonita: um erro de programação teria deixado a inteligência artificial da polícia agressiva demais, fazendo as viaturas perseguirem e baterem no jogador feito loucas. Os testadores teriam achado aquilo tão divertido que a equipe decidiu não corrigir o erro, e sim transformá-lo no coração do jogo.

Vale dizer que essa versão é contestada. Veteranos da DMA Design já afirmaram que não houve um único momento mágico que salvou o projeto. Segundo eles, a virada veio de um trabalho bem menos romântico e bem mais braçal: a reformulação da direção dos carros, a inclusão do rádio tocando dentro do veículo e a adoção de um sistema de pontuação no estilo arcade. Foi a soma dessas coisas, e não um bug isolado, que fez o jogo engatar. A história do bug salvador é mais gostosa de contar do que os meses de ajuste fino que realmente aconteceram, e é por isso que ela pegou.

De um jeito ou de outro, em 1997 aquele projeto quase cancelado saiu com outro nome: Grand Theft Auto.

Como a Rockstar entra na história

A Rockstar Games não existia ainda. Quem publicou o primeiro GTA foi a BMG Interactive, braço de jogos do grupo de mídia alemão Bertelsmann.

Em março de 1998, a Take-Two Interactive, uma empresa de Nova York fundada cinco anos antes por Ryan Brant, então com 21 anos de idade, comprou os ativos da BMG Interactive. No pacote vinha a propriedade intelectual do Grand Theft Auto.

Em dezembro de 1998, um grupo dentro da Take-Two fundou uma nova marca para cuidar daquilo. Entre eles estavam os irmãos Sam e Dan Houser, que vinham justamente da BMG Interactive, além de Terry Donovan, Jamie King e Gary Foreman. O nome da marca era Rockstar Games.

No ano seguinte, a Rockstar comprou a DMA Design, o estúdio escocês do funcionário demitido. Com o tempo, a DMA seria rebatizada de Rockstar North, o estúdio que assina os GTA até hoje. Ele continua em Edimburgo, na Escócia.

A conta que não fecha

É difícil olhar para essa sequência e não achar graça. Uma fábrica de relógios pega um contrato para montar computadores baratos. Os computadores vazam para dentro das casas da cidade. Uma geração de adolescentes aprende a programar no quarto. A fábrica demite um funcionário. O funcionário gasta a rescisão num computador. A fábrica quebra e fecha. E o estúdio que o demitido fundou vira o coração criativo de uma das franquias mais valiosas da história do entretenimento.

Nenhuma parte disso foi planejada por ninguém. É só uma cidade pequena da Escócia, um contrato de manufatura e um bilhete de saída que virou capital inicial.

  • Tags: #gta #rockstar #curiosidades #games #historia
  • Música: ES_Level Up - Loyae (Epidemic Sound)

Fontes

Créditos das imagens de arquivo (usadas no vídeo)

  • Sinclair ZX Spectrum, foto de William Warby (CC BY 2.0, via Wikimedia Commons)
  • Commodore Amiga 1000, foto de Blake Patterson (CC BY 2.0, via Wikimedia Commons)