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A única cidade do mundo em 2 continentes

Existe uma cidade onde você pode tomar café da manhã na Europa e almoçar na Ásia sem pegar um avião. Istambul é a única cidade do mundo oficialmente situada em dois continentes — e o motivo dela existir exatamente ali é uma história de comércio e poder que atravessa quase 2.700 anos.

Existe uma cidade onde você pode tomar café da manhã na Europa e almoçar na Ásia sem pegar um avião. Em muitos pontos, a travessia leva poucos minutos, de balsa, de ponte ou de trem. Essa cidade é Istambul, e ela é a única do planeta oficialmente situada em dois continentes ao mesmo tempo.

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Onde a Europa encontra a Ásia

O que separa os dois lados é o Bósforo, um estreito de 31 quilômetros que liga o Mar Negro ao Mar de Mármara. No ponto mais estreito, ele tem menos de 700 metros de largura. De um lado fica a Europa, do outro a Ásia, e mais de 15,7 milhões de pessoas vivem espalhadas pelos dois lados — cerca de dois terços na parte europeia, o resto na parte asiática.

Mas a curiosidade geográfica é só a superfície. O motivo de Istambul existir exatamente ali, e de meio mundo já ter lutado por ela, é uma história de comércio e poder que atravessa quase 2.700 anos.

Três nomes, um só lugar

Tudo começa por volta de 660 a.C., quando colonos gregos vindos de Mégara se instalaram na margem europeia do Bósforo e fundaram um povoado chamado Bizâncio. Qualquer navio que quisesse ir do Mar Negro para o Mediterrâneo precisava passar bem ali — inclusive os navios carregados de trigo que alimentavam boa parte do mundo antigo. Controlar aquele canal era controlar o comércio entre duas metades do mundo conhecido.

Em 11 de maio do ano 330, o imperador Constantino proclamou a cidade capital do Império Romano, e ela passou a se chamar Constantinopla. Protegida por água dos dois lados e por muralhas na terceira — as Muralhas Teodosianas —, ela resistiu a cercos árabes nos séculos 7 e 8, e sobreviveu até a um saque vindo de dentro da própria cristandade: em 1204, exércitos da Quarta Cruzada invadiram e saquearam a cidade. Mesmo assim, Constantinopla seguiu sendo capital do Império Bizantino por mais de mil anos.

Em 29 de maio de 1453, depois de um cerco de 55 dias, os exércitos otomanos comandados pelo sultão Mehmed II finalmente romperam as muralhas. Constantinopla caiu, e o Império Bizantino, o último resquício direto de Roma, chegou ao fim. A cidade virou a nova capital do Império Otomano, e seguiria sendo o centro de outro grande império por quase 500 anos — até 1930, quando o nome oficial mudou pela última vez para o que conhecemos hoje: Istambul.

Uma consequência inesperada

A conquista otomana de 1453 é apontada por historiadores como um dos fatores que empurraram reinos como Portugal e Espanha a investir em rotas marítimas alternativas até a Ásia — uma das raízes da Era das Grandes Navegações. É uma explicação, não um consenso fechado, mas é difícil não achar irônico: uma cidade, num estreito de 700 metros, ajudou a empurrar a Europa para o oceano.

Um prédio, quatro capítulos

Um símbolo dessa sobreposição de eras segue de pé até hoje: a Hagia Sophia. Construída como igreja em 537, ela foi por quase mil anos o maior espaço interno coberto já erguido pela humanidade. Quando Constantinopla caiu em 1453, Mehmed II a transformou em mesquita. Ela seguiu assim até 1935, quando o governo secular da nova República da Turquia a reabriu como museu. Em 2020, uma decisão do Conselho de Estado turco a reclassificou como mesquita novamente. Igreja, mesquita, museu e mesquita de novo — quatro capítulos diferentes, escritos pelas mesmas paredes.

Um país quase todo asiático

Vale parar num detalhe que quase ninguém nota: a Turquia inteira é um país majoritariamente asiático. Cerca de 97% do território fica na Anatólia, do lado asiático. Só uns 3%, a região da Trácia Oriental, fica do lado europeu — e mesmo assim, essa fatia concentra cerca de 12% de toda a população do país, boa parte dela em Istambul.

De barco a trem, em poucos minutos

Por séculos, atravessar o Bósforo só era possível de barco. Isso começou a mudar em 1973, com a primeira ponte suspensa sobre o estreito. Vieram outras duas, em 1988 e 2016 (esta última, a ponte suspensa mais larga do mundo). Debaixo da água, a ideia de um túnel ferroviário surgiu ainda em 1860, no Império Otomano, mas só saiu do papel em 2013, com o Marmaray — um túnel de 13,7 km que passa a cerca de 55 metros de profundidade. Levou mais de 150 anos entre a ideia e a obra pronta.

E existe um jeito de atravessar que não depende de motor nenhum. Desde 1989, Istambul recebe uma prova de natação em águas abertas de 6,5 km entre os dois continentes. Na primeira edição, 68 pessoas participaram. Hoje, edições recentes já reuniram mais de 2.800 nadadores de 81 países.

A maior cidade da Europa, com ressalvas

Com quase 16 milhões de habitantes, Istambul costuma aparecer nas listas como a maior cidade da Europa em população — à frente de Londres, Moscou e Paris. Mas nem toda lista concorda: como boa parte da cidade também é geograficamente Ásia, algumas contagens simplesmente a excluem da comparação, ou contam só o lado europeu.

Depois de quase 2.700 anos, o motivo de Istambul continuar sendo tão importante não mudou muito. Gregos, romanos, bizantinos e otomanos quiseram controlar aquele mesmo pedaço de água, porque quem está ali está literalmente entre dois mundos. A cidade trocou de nome três vezes, de dono várias outras, e até seus prédios mais sagrados trocaram de função mais de uma vez. O Bósforo, entre a Europa e a Ásia, continua exatamente no mesmo lugar.

  • Tags: #curiosidades #geografia #historia #istambul #turquia

Fontes