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A mãe que passou 4 anos sem comer

No fundo do mar, a 1.400 metros de profundidade, uma mãe-polvo abraçou seus ovos e nunca mais saiu do lugar. Cientistas do MBARI voltaram àquele ponto na costa da Califórnia por mais de quatro anos, e ela ainda estava ali, protegendo os ovos e recusando comida.

No fundo do Oceano Pacífico, a mais de mil metros de profundidade, uma fêmea de polvo se agarrou a uma rocha, cobriu os próprios ovos com o corpo e simplesmente não saiu mais dali. Ela ficou naquele lugar por quatro anos e meio, sem se alimentar uma única vez, até que os filhotes nascessem. Depois, morreu. É a mais longa gestação já registrada em qualquer animal do planeta, e a história de como os cientistas descobriram isso é quase tão improvável quanto o próprio recorde.

Uma vizinha que os cientistas visitaram por anos

A protagonista é uma Graneledone boreopacifica, uma espécie de polvo de águas profundas. Ela foi encontrada por pesquisadores do MBARI, o Instituto de Pesquisa do Aquário da Baía de Monterey, na Califórnia, durante os mergulhos de um veículo operado remotamente no Cânion de Monterey, a cerca de 1.400 metros de profundidade.

Em abril de 2007, os cientistas notaram uma fêmea que acabara de se instalar numa saliência de rocha. Eles a reconheciam pelas cicatrizes específicas do corpo dela, o que permitiu acompanhá-la em cada retorno ao mesmo ponto. E os retornos foram muitos: ao longo dos anos seguintes, a equipe voltou àquele lugar dezenas de vezes, e ela estava sempre lá, abraçada ao mesmo cacho de ovos.

Quatro anos e meio sem comer

A vigília durou 53 meses, de abril de 2007 até outubro de 2011. Durante todo esse tempo, a mãe protegeu os ovos de predadores e os manteve limpos e oxigenados, soprando água sobre eles com o sifão e afastando qualquer coisa que se aproximasse. Em nenhuma das visitas ela foi vista comendo. Os pesquisadores chegaram a oferecer pedaços de caranguejo perto dela, e ela recusou, sem abandonar o posto.

Com o passar do tempo, o corpo dela contava a história do esforço. A pele, antes arroxeada, foi ficando pálida e frouxa. Ela perdeu massa e foi encolhendo. Ainda assim, permaneceu.

Por que demorou tanto

A explicação para um número tão extremo está na temperatura. A quase 1.400 metros de profundidade, a água fica em torno de 3 graus Celsius. O frio desacelera tudo: o metabolismo da mãe e, principalmente, o desenvolvimento dos embriões dentro dos ovos. Quanto mais fria a água, mais lento o relógio biológico, e mais tempo os filhotes precisam para se formar por completo antes de eclodir.

Esse é o trade-off da vida nas profundezas. A lentidão que obriga a mãe a um jejum de anos é a mesma que entrega, no fim, filhotes grandes e plenamente desenvolvidos, prontos para sobreviver sozinhos no ambiente hostil do fundo do mar, sem qualquer cuidado depois do nascimento.

Um final programado

O desfecho dessa história não é um acidente: é parte do plano evolutivo do polvo. A maioria das espécies de polvo reproduz uma única vez na vida. A fêmea bota seus ovos, dedica-se inteiramente a eles e entra em um processo de senescência, deixando de se alimentar e definhando à medida que os ovos amadurecem. Quando os filhotes finalmente rompem as cascas e nadam para a escuridão, a mãe já está no fim.

Foi o que aconteceu ali. Na visita de outubro de 2011, a rocha estava tomada apenas pelas cascas vazias dos ovos, e a mãe havia desaparecido. Ela nunca veria os filhotes crescerem. Passou os últimos anos da própria vida protegendo uma vida que mal chegou a conhecer.

O que esse recorde nos ensina

O estudo, publicado em 2014 na revista científica PLOS ONE, cravou o período de 53 meses como a mais longa incubação conhecida de qualquer animal, superando com folga marcas de peixes e de outros invertebrados de águas frias. Mais do que um número de almanaque, o caso virou uma janela rara sobre a vida no fundo do mar, um lugar que ainda conhecemos menos do que a superfície da Lua.

Histórias assim lembram que o extraordinário não está só nos animais grandes e famosos. Às vezes ele está numa fêmea de polvo do tamanho de uma mão, num ponto escuro e gelado do oceano, fazendo em silêncio o esforço mais longo já documentado em nome da geração seguinte.

  • Tags: #curiosidades #ciencia #natureza #oceano #animais
  • Música: ES_With Some Hope - DEX 1200 (Epidemic Sound)

Fontes