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A Inglaterra só tem uma Copa, e o gol pode nunca ter entrado

Na final de 1966, em Wembley, Geoff Hurst chutou, a bola bateu embaixo do travessão e quicou em cima da linha. Não havia replay, e quem decidiu foi o bandeirinha soviético Tofiq Bahramov, que não falava a mesma língua do árbitro suíço. Ele apontou para o meio, e a Inglaterra ganhou a única Copa que tem até hoje.

Existe um gol que aparece em toda retrospectiva de Copa do Mundo, que decidiu o único título de uma seleção inteira, e que talvez nunca tenha acontecido. Ele foi marcado em 30 de julho de 1966, em Wembley, e mais de cinquenta anos depois ninguém consegue provar que a bola entrou.

Onze segundos que ninguém viu direito

A final entre Inglaterra e Alemanha Ocidental estava 2 a 2. A Alemanha havia empatado no último minuto do tempo normal, e o jogo foi para a prorrogação. Aos 101 minutos, Geoff Hurst girou dentro da área e chutou. A bola bateu na parte de baixo do travessão, desceu quase na vertical e quicou perto da linha.

Não havia replay instantâneo, não havia tecnologia, não havia nada. O árbitro suíço Gottfried Dienst estava mal posicionado e não viu o quique. Ele fez a única coisa que podia fazer: correu até a linha lateral e perguntou ao auxiliar. O auxiliar era Tofiq Bahramov, azerbaijano, na época parte da União Soviética. Os dois não falavam a mesma língua.

O que se seguiu foi uma conversa de gestos, com um estádio de cem mil pessoas gritando em volta. Bahramov apontou para o meio de campo, que é o sinal universal de gol validado. Dienst confirmou. A Inglaterra passou a ganhar por 3 a 2, marcou o quarto aos 120 minutos e levantou a taça. É o único título mundial que ela tem até hoje.

Trinta anos depois, alguém foi medir

Em 1995, dois engenheiros do departamento de engenharia da Universidade de Oxford, Ian Reid e Andrew Zisserman, resolveram tratar o lance como um problema de geometria. Eles pegaram as imagens de televisão da época, reconstruíram a posição da câmera, a trajetória da bola e a geometria do gol, e refizeram o quique quadro a quadro.

A conclusão deles foi que a bola não entrou inteira. Faltaram cerca de seis centímetros para que ela cruzasse a linha por completo, que é a condição que a regra exige.

Vale dizer o que essa conclusão é e o que ela não é. É o estudo mais citado sobre o lance, feito com método e publicado por engenheiros de visão computacional. Mas outras reconstruções digitais, feitas depois com premissas diferentes de velocidade e efeito da bola, chegaram ao resultado contrário. O que praticamente ninguém defende é que exista uma resposta definitiva. O gol de 1966 é o exemplo perfeito de uma decisão que dependeu inteiramente de um ser humano olhando de longe, em um décimo de segundo.

O detalhe que quase ninguém lembra

Aqui a história fica realmente estranha. Em 1966 não existia disputa de pênaltis. Ela só passou a ser usada em Copas do Mundo bem depois, e a regra específica da final continuou sendo outra até 1982.

Se aquele gol não tivesse sido validado, o placar naquele momento seria 2 a 2. E o regulamento previa que uma final empatada fosse simplesmente rejogada, alguns dias depois, do começo. Uma segunda final inteira, em Wembley.

E se essa segunda final também terminasse empatada? Não havia previsão de um terceiro jogo. O campeão do mundo seria decidido por sorteio.

É importante ser honesto aqui: isso não significa que a Inglaterra não seria campeã sem o gol fantasma. Ela ainda marcou o quarto gol aos 120 minutos, e um jogo empatado teria sido disputado de outro jeito nos minutos finais. O que dá para afirmar com certeza é bem mais desconfortável do que qualquer especulação: o mundo passou perto de ter um campeão mundial escolhido em um sorteio, e a única coisa que impediu isso foi o dedo de um auxiliar que não entendia a pergunta do árbitro.

A vingança da Alemanha, quarenta e quatro anos depois

A história tem um segundo capítulo, e ele é quase cruel demais para ser verdade.

Na Copa de 2010, na África do Sul, Inglaterra e Alemanha se enfrentaram de novo. Frank Lampard chutou, a bola bateu no travessão, desceu e quicou bem dentro do gol, com folga. Muito mais dentro do que em 1966. O árbitro não deu.

Dessa vez as câmeras mostraram tudo, para o mundo inteiro, em alta definição, em segundos. O constrangimento foi tão grande que a FIFA, que resistia havia anos, mudou de posição. A tecnologia da linha do gol foi aprovada e estreou na Copa de 2014. Hoje um sensor decide em um segundo, e o árbitro sente a vibração no relógio.

A lenda que ninguém conseguiu confirmar

Há uma história famosa sobre Bahramov. Segundo ela, anos depois, já velho, perguntaram a ele por que tinha validado aquele gol. Ele teria respondido uma única palavra: "Stalingrado".

A frase é boa demais. Ela explica tudo, num golpe só, e é justamente por isso que se deve desconfiar dela. Não existe registro confiável de que Bahramov tenha dito isso, e a história aparece em versões diferentes, atribuída a jornalistas diferentes. O que existe de concreto é bem menos romântico e bem mais interessante: no Azerbaijão, Bahramov virou herói nacional. O estádio principal de Baku leva o nome dele, e tem uma estátua sua na entrada.

Por que isso ainda importa

O futebol passou o século vinte inteiro tomando decisões assim, com um sujeito correndo atrás da jogada e outro sujeito na lateral, os dois adivinhando. A tecnologia mudou isso, e a discussão hoje é sobre o excesso de revisão, sobre linhas traçadas em cima do calcanhar de um atacante, sobre minutos parados esperando uma decisão.

Vale lembrar de onde a gente veio. Há sessenta anos, o maior título do futebol dependeu de dois homens que não falavam a mesma língua, tentando se entender aos gritos, no meio de um estádio, sobre uma coisa que nenhum dos dois tinha visto com clareza. E deu no que deu: até hoje, ninguém sabe.

  • Tags: #copadomundo #futebol #curiosidades #1966 #shorts

Fontes