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A falta que humilhou um goleiro em Paris

França e Espanha se enfrentam de novo, e a história entre as duas é feita de detalhes cruéis.

França e Espanha voltam a se encontrar, e a história entre as duas seleções tem um padrão estranho: quase sempre ela é decidida por um detalhe pequeno, quase mesquinho, que muda tudo e nunca é esquecido. Não são goleadas nem viradas épicas. São erros, milímetros e obsessões.

Estas são as três histórias que essa rivalidade guarda.

1984: a falta mais fraca da história de uma final

Em 27 de junho de 1984, no Parc des Princes, em Paris, a França encarava a Espanha na final da Eurocopa. Aos 57 minutos, Michel Platini cobrou uma falta na entrada da área. A bola não foi forte. Não foi no ângulo. Foi rasteira e sem veneno, do tipo que qualquer goleiro profissional defende dormindo.

Luis Arconada, capitão espanhol e um dos melhores goleiros da Europa naquele momento, se jogou e encaixou. Por um instante, a bola estava presa entre o corpo dele e a grama. E então ela escorregou. Passou por baixo do peito dele, cruzou a linha e entrou.

Bruno Bellone marcou o segundo nos minutos finais, e a França venceu por 2 a 0. Foi o primeiro título grande da história do futebol francês, e a França se tornou o único país anfitrião a vencer a Eurocopa em seu formato ampliado.

Mas o que sobrou daquela noite não foi a taça. Foi o erro. Ele ganhou nome próprio, o "Arconadazo", e virou sinônimo de falha de goleiro em espanhol. Arconada teve uma carreira admirável, com mais de quinhentos jogos pela Real Sociedad. Nada disso importou. Ele passou o resto da vida sendo o homem que deixou a bola passar por baixo do corpo.

2006: o último ato de Zidane

Vinte e dois anos depois, as duas se cruzaram de novo, agora nas oitavas de final da Copa do Mundo da Alemanha. A França vinha mal na fase de grupos, e a Espanha era a favorita clara. Terminou 3 a 1 para os franceses, com Zinedine Zidane dando a assistência para Patrick Vieira e marcando o terceiro.

O detalhe que dá peso ao jogo só ficou visível depois. Aquela era a última Copa de Zidane, que já tinha anunciado a aposentadoria. Ele eliminaria o Brasil nas quartas, levaria a França até a final, e ali cometeria o gesto que sela sua biografia até hoje. A vitória sobre a Espanha foi o começo daquela despedida improvável.

2010: a campeã que quase não fez gol

Quatro anos depois, a Espanha aprendeu a vencer de um jeito que ninguém tinha visto antes.

Ela começou a Copa da África do Sul perdendo. A Suíça venceu por 1 a 0, com gol de Gelson Fernandes, e a maior favorita ao título estava em apuros na estreia. A Espanha se recuperou contra Honduras e Chile, e a partir dali entrou num modo quase monástico: venceu todos os quatro jogos de mata-mata por 1 a 0. Portugal, Paraguai, Alemanha e Holanda, um a um, sempre pelo placar mínimo. O gol do título veio de Iniesta, na prorrogação da final.

Os números daquela campanha são difíceis de acreditar. A Espanha foi campeã do mundo marcando apenas 8 gols em 7 jogos, o menor total de qualquer campeã na história da competição. O recorde anterior era 11, e pertencia ao Brasil de 1994, à Inglaterra de 1966 e à Itália de 1938. Só três jogadores marcaram no torneio inteiro: David Villa fez cinco, Iniesta dois e Puyol um. A Alemanha, que terminou em terceiro, marcou dezesseis.

O detalhe é sempre o assunto

É difícil não notar o fio que costura as três histórias. A França ganhou seu primeiro título grande porque uma bola fraca escorregou por baixo de um corpo. A Espanha ganhou o mundo sem quase nunca marcar. E Zidane, entre um e outro, se despediu numa Copa que terminaria por um gesto de quatro segundos.

Nada disso é sobre superioridade. É sobre margem. França e Espanha se encontram há décadas em jogos onde o placar é apertado e a decisão cabe num instante que ninguém consegue prever, e que depois ninguém consegue esquecer.

Quando as duas entrarem em campo de novo, o mais provável é que a partida seja decidida assim: por um detalhe que, no dia seguinte, vai ter nome próprio.

Fontes: final da Eurocopa de 1984 (27/06/1984, Parc des Princes); oitavas de final da Copa do Mundo de 2006; campanha da Espanha na Copa do Mundo de 2010.

  • Tags: #copadomundo #futebol #franca #espanha #curiosidades
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Fontes