Todo país tem suas esquisitices, mas o Japão opera num nível próprio. Três fatos que soam como invenção e são todos verdade, com documentação histórica no meio do caminho.
1. Uma máquina de venda para cada 23 pessoas
O Japão tem por volta de 5 milhões de máquinas de venda automática em operação, segundo a associação do setor. Dividindo pela população, dá aproximadamente uma máquina para cada 23 habitantes, uma das maiores densidades do mundo.
Elas estão em toda parte: na esquina movimentada, mas também na estrada vazia no meio da montanha, no beco residencial silencioso, ao lado de um templo. E não vendem só refrigerante. Vendem café quente em lata, ramen, sorvete, ovos, guarda-chuva, gravata, flores.
Duas coisas explicam o fenômeno. Uma é econômica: mão de obra é cara, espaço comercial é caríssimo, e uma máquina ocupa menos de um metro quadrado e trabalha 24 horas sem salário. A outra é social: o índice de vandalismo e furto é baixo o bastante para que faça sentido deixar uma máquina cheia de dinheiro e mercadoria sozinha numa rua deserta a noite inteira. Em boa parte do mundo, essa conta simplesmente não fecha.
2. Houve um samurai africano a serviço do homem mais poderoso do Japão
Em 1579, um homem africano chegou ao Japão acompanhando o jesuíta italiano Alessandro Valignano. Alto, forte e de pele escura, ele causou tamanha comoção nas ruas de Kyoto que a multidão que queria vê-lo chegou a causar tumulto.
A notícia chegou a Oda Nobunaga, o senhor da guerra que estava unificando o Japão à força e era, na prática, o homem mais poderoso do país. Nobunaga quis vê-lo pessoalmente. Conta-se que mandou esfregar sua pele, convencido de que aquela cor era tinta, e que se impressionou ao constatar que era real.
O que veio depois está registrado no Shinchō Kōki, a crônica oficial de Nobunaga: o homem, que recebeu o nome de Yasuke, entrou para o serviço do senhor feudal. Ganhou estipêndio, moradia própria e uma espada, marcas de status de guerreiro. Serviu Nobunaga de 1581 a 1582 e estava presente no incidente de Honnō-ji, o cerco em que Nobunaga foi traído e cometeu seppuku.
Uma nota de honestidade: historiadores ainda debatem se o posto formal de Yasuke era tecnicamente o de "samurai", uma categoria com contornos jurídicos específicos na época. O que os documentos confirmam sem controvérsia é o serviço armado, o salário, a casa e a espada.
3. Dormir no trabalho pode ser sinal de dedicação
Chama-se inemuri, algo como "estar presente e dormindo". É a prática, socialmente aceita, de cochilar no expediente, na reunião ou no trem, sem que isso seja lido como preguiça.
A lógica é o oposto da nossa. Se você está tão exausto a ponto de apagar sentado na cadeira, é porque se esgotou trabalhando. O cochilo vira evidência de esforço, não de desleixo. Há regras não escritas, claro: você deve continuar aparentando estar presente, manter a postura, e voltar imediatamente se for chamado.
Tem um lado sombrio nisso, e seria desonesto não dizer. O inemuri é tolerado justamente porque a cultura de trabalho japonesa impõe jornadas exaustivas, ao ponto de existir uma palavra, karōshi, para morte por excesso de trabalho. O cochilo aceito no escritório é o sintoma simpático de um problema que não tem nada de simpático.
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Fontes